Perfil

— Boa tarde, tudo bem?

— Tudo ótimo, e você?

— Tudo bem também. Queria te agradecer por ter vindo hoje.

— Imagina. Eu que agradeço pela oportunidade.

— Maravilha. Então, essa entrevista vai ser mais como um bate-papo, para a gente te conhecer melhor e saber se você tem aderência à vaga.

— Aderência…

— Isso. Então, fala mais sobre você. Conta pra gente a sua experiência profissional, acadêmica, de vida.

— Opa, claro. Bom, eu sou jornalista, com pós em comunicação institucional e uma fellowship na Fundação Knight, dos Estados Unidos. Trabalhei muitos anos com comunicação corporativa dentro de empresas grandes. Inclusive, uma delas foi aquela da campanha que está bombando nas redes sociais agora.

— Qual?

— Aquela dos cachorrinhos…

— Ah…

— Sim.

— Mas você não colocou essa experiência no currículo, né?

— Não?

— Não. Não está aqui.

— Está logo embaixo da parte em que eu descrevo minha experiência como repórter voluntária numa ONG, que é uma das minhas ocupações atuais.

— Ah…

— Bom, além disso, eu também sou freelancer e trabalho muito para agências de comunicação criando conteúdo institucional para empresas e ONGs.

— Bacana.

— É…

— Agora eu vou falar um pouco da vaga. A gente está procurando alguém com perfil maker, alguém que veja a empresa com sua também. Alguém que tope correr riscos e se dedique de corpo e alma ao negócio.

— Acho que não deixo a desejar nisso. Além da minha experiência como jornalista, também sou microempresária. Tenho um sebo online e trabalho sozinha, então acabo fazendo de tudo — marketing, contabilidade, logística…

— Entendi. Mas você não acha que isso interferiria na sua dedicação a um emprego?

— Mas vocês não querem alguém com perfil maker? Então, eu tenho esse perfil.

— É, mas cuidar de empresa e ter um emprego ao mesmo tempo é meio complicado, né?

— …

— Bom, me fala mais sobre o seu trabalho na empresa que fez a campanha dos cachorrinhos…

— Ah, foi uma baita experiência. Aprendi quase tudo o que sei sobre comunicação corporativa lá. É uma empresa enorme, com um setor de comunicação robusto, quase como uma agência. Como ninguém acumulava funções, cada um podia se dedicar a ser cada vez melhor no que fazia. Eu podia criar projetos inovadores, montei do zero planos de comunicação para vários lançamentos importantes… Enfim, foi uma experiência incrível.

— Entendi. Mas você não acha que isso te faz uma profissional menos versátil?

— Desculpe?

— Você disse que ninguém acumulava funções lá. Aqui, nós queremos pessoas que joguem nas 11, que conheçam todo o processo, do início ao fim, e possam assumir os jobs em qualquer etapa de realização.

— Mas eu acho que sei jogar muito bem nas 11, dentro do meu campo de atuação. Lá na empresa X eu atuava sempre junto do restante da equipe. Todo mundo sabia bem o que todos estavam fazendo. A gente aplicava a metodologia Kanban em todos os projetos.

— Bacana. Mas você não acha que essa experiência foi muito careta?

— …

— Aqui a gente tem uma pegada mais livre, mais jovem. A gente não usa metodologias tradicionais…

— Mas o Kanban torna os processos mais eficientes…

— Mas a gente não está ligado só na eficiência. A gente quer gás, quer criatividade, quer energia.

— Mas eu tenho tudo isso.

— Mas eu não sei se você se adaptaria ao nosso estilo de trabalho.

— …

— Ah, uma última pergunta. Qual é o seu signo e o seu ascendente?

— Aquário com Leão.

— Hmm… Combinação complicada.

— …

— Bom, foi ótimo conversar com você. A gente vai ter o resultado em dois dias. O RH vai entrar em contato contigo.

Dois dias depois.

Silêncio na linha.

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