Por favor, parem de usar a palavra “dentre”

Ou sobre o perigo das modinhas linguísticas

Uma das minhas disciplinas preferidas na escola sempre foi Português. Não me tornei jornalista à toa: as infinitas possibilidades que o (bom) uso de um idioma traz sempre me fascinaram e intrigaram.

É possível dizer tanta coisa, às vezes com apenas algumas poucas palavras. Podemos expressar sentimentos, dúvidas, ideias e ideologias; podemos melhorar o dia de alguém ou informar sobre o estado de coisas no mundo. Podemos fazer arte, podemos transmitir notícias, podemos perpetuar conhecimento — tudo isso graças às línguas e à utilização que fazemos delas.

É por tudo isso (e por prezar a clareza na comunicação mais que quase tudo na vida) que eu sempre me debato em cólicas quando vejo o uso cada vez mais comum — e quase sempre equivocado — da palavra “dentre”.

Fruto da junção das preposições “de” e “entre”, quando utilizada corretamente ela significa “do meio de”. Um exemplo de uso correto seria “O homem foi salvo dentre os escombros”, indicando que o sujeito em questão foi resgatado do meio de escombros.

O que eu tenho observado frequentemente, porém, é o uso de “dentre” em substituição à palavra “entre”. Os exemplos desse erro estão em todos os lugares: em posts em redes sociais, em textos jornalísticos, em livros, em artigos científicos, na fala e na escrita de pessoas de quem supostamente se esperaria melhor aplicação da língua… E o que esse fenômeno me revela é o grau de perniciosidade das “modinhas” linguísticas, nas quais desatamos a repetir palavras e termos do momento sem realmente analisarmos se isso é de fato necessário, ou se estamos fazendo isso de forma correta.

Um exemplo de erro está na seguinte frase, encontrada na versão online de um jornal de grande circulação:

“Dentre as vítimas de assaltos, estava uma criança e um casal que teve o carro roubado por criminosos na região”.

Aqui, claramente, a palavra que deveria ter sido usada é “entre”, pois o verbo “estar” nessa acepção não demanda o uso da preposição “de”. Para entender melhor, basta reescrever a frase, substituindo “dentre” por “do meio de”. Ficaria assim:

“Do meio das vítimas de assaltos, estava uma criança e um casal que teve o carro roubado por criminosos na região”.

Acho que assim o erro fica mais evidente, não?

Não sou catedrática, nem quero me autodeterminar a guardiã absoluta da pureza de nossa língua, mas textos são o meu ganha pão, e palavras são a minha arma de escolha. Por isso, deixo aqui meu apelo aos leitores: antes de utilizarem a palavra “dentre”, façam o breve exercício que propus acima. Avaliem se a preposição realmente faz sentido na frase e, na dúvida, consultem o Google, onde sempre é possível achar uma boa resposta.

O português, essa nossa bela e sofrida língua, agradece.

Juliana Alvim

Jornalista, tradutora e aprendiz de acadêmica. Apaixonada por Berlim, seu sonho é ser fluente em alemão antes de completar 60 anos. Ainda faltam 25 anos para chegar lá.

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