O embuste da nova criatividade

Não se assustem com a palavra “embuste” no título deste texto. Ela está ali para nos lembrar que existe uma linha muito tênue entre um discurso verdadeiramente inovador, que promova mudanças reais, e as falácias propagandísticas de cada dia.

Volta e meia me pego refletindo sobre essa onda de gurus que surgem vendendo a ideia de que um novo estilo de vida é possível, que podemos nos livrar das amarras do mercado, da sociedade, do consumo e sermos quem realmente devemos ser.

Enquanto alguns expoentes da inovação de modelos mentais são realmente verdadeiros e honestos em sua abordagem e guiam seus seguidores pelo exemplo e compartilhando informação e conhecimento (basta ver a Cristal Muniz, do Um Ano Sem Lixo, e ver que sim, é possível mudar), outros parecem surfar na onda de uma nova forma de criatividade e apelar para um desejo mais básico por liberdade que mora em cada um de nós.

Quando falo em “gurus” não estou me referindo apenas a blogueiros e vloggers que prometem a solução de todos os problemas do homem contemporâneo. Também incluo aí empresas que vendem um discurso muito bonito e correto, que insistem que seu propósito é criar, buscar, propagar ou “entregar” valor para seu público e/ou seus clientes.

Certa vez, lendo um texto sobre um expoente dessa seara de “entrega de valores” altamente abstratos e rarefeitos (cujo nome, coincidentemente, me faz lembrar da palavra embuste que está lá no título), peguei-me perguntando: “o que diabos essa pessoa faz, afinal?”

Um punhado de palavras bonitas e um discurso um tanto quanto revolucionário escondem o fato de que, ao fim e ao cabo, tudo o que o tal sujeito — e tantos outros como ele — vende são ideias. E ideias podem nem sempre ser honestas ou, de fato, se concretizarem.

Ideias podem ser embustes.

Nós, brasileiros e sofredores, acompanhamos nos últimos anos o que significa, na prática, vender ideias que se revelam uma bolha cheia de ar e zero conteúdo. Mas não são apenas megaempresários e negócios bilionários que podem se revelar grandes fraudes. Pequenas ideias, ou empresas de médio porte (porém, de grande alcance) do setor criativo também podem nos levar ao engano. Blogueiros aparentemente bem intencionados podem estar apenas reproduzindo uma versão virtual, web 3.0 dos esquemas de pirâmide.

Como separar então o joio do trigo? Como saber quem realmente está “entregando valor”? É difícil responder a essa pergunta, pois é preciso uma boa dose de feeling para perceber onde está o embuste e onde está a verdade.

Eu sempre desconfio de discursos vagos, que usam palavras de significado pouco instrutivo, e de pessoas que não são claras sobre o que fazem, como fizeram para chegar lá e qual valor elas de fato “entregam”.

Esse é o meu modo de saber se estou sendo enganada ou não. Qual é o seu?

Juliana Alvim

Jornalista, tradutora e aprendiz de acadêmica. Apaixonada por Berlim, seu sonho é ser fluente em alemão antes de completar 60 anos. Ainda faltam 25 anos para chegar lá.

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